Seguro da felicidade
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| já assinou o seguro da felicidade? | foto: oticacotidiana |
No momento em que adquirimos consciência de que existimos, de que sentimos coisas que doem e outras que nos fazem bem, assinamos uma espécie de contrato. À medida que envelhecemos e vivemos experiências repetidas, esse contrato parece se fortalecer. O contrato em questão é o medo da felicidade:
A gente tem medo de ser feliz.
Não necessariamente porque queira ser infeliz, mas porque existe em nós uma crença de que, para que algo bom aconteça, algo ruim precisará equilibrar a balança pouco tempo depois. Como se a felicidade criasse uma dívida. Como se a vida fosse um agiota que, em algum momento inoportuno, viesse cobrá-la. E isso contrasta com a possibilidade de experimentar alguma coisa em sua totalidade. A experiência não tem forma. Ela apenas é.
No entanto, diante da impossibilidade de saber o futuro, acionamos o contrato e endurecemos diante da felicidade. Se recebemos uma ligação com uma notícia boa, já pensamos que algo pode acontecer para equalizar. Se estamos vivendo um amor, pensamos que ele pode acabar. Se estamos vivendo a realização ou a abundância, pensamos na escassez e nas perdas.
Talvez, no fundo, não tenhamos medo da felicidade, mas da vulnerabilidade que ela exige. Porque ser feliz também significa ter algo a perder.
E sabemos que, no momento em que experimentamos a felicidade, alguma coisa em nós muda por completo. Essa mudança, que às vezes nos faz atravessar um rio inteiro, também pode nos causar pânico. Há algo assustador em perceber que já não somos exatamente quem éramos antes de viver aquilo.
A felicidade, ou talvez as coisas boas da vida, costuma aparecer justamente quando já não imaginávamos que seria possível. Quando já nos anestesiamos da possibilidade de viver aquilo. Quando aprendemos a conviver com o desejo em silêncio. Então a vida vem, apresenta aquilo que parecia improvável, e nos vemos perdidos entre viver o que está posto, adiar ou deixar para trás.
É o seguro contra a infelicidade sendo acionado.
Tememos que os movimentos nos arranquem algo que demoramos tanto para conquistar. Porque a sensação de ter algo bom e perdê-lo em seguida pode parecer mais incômoda do que a sensação de não ter e já estar acostumado a não ter. A ausência, quando conhecida, parece mais segura do que a presença quando ainda não sabemos quanto tempo ela vai durar.
Mas é a experiência que fica. E justamente por isso ela marca. Talvez seja isso que temamos.
Nessa equação, estamos sempre agindo como inquisidores da própria felicidade. Se estamos tristes, aceitamos que estamos. Se estamos felizes, começamos a investigar: merecemos isso? Vai durar? O que acontecerá depois? Será que essa felicidade é apenas momentânea e logo ficará encalhada na beira do mar, junto aos plásticos que poluem o oceano?
Só que, ainda que o futuro não exista propriamente e devamos viver o agora, não precisamos ignorá-lo. Talvez seja possível perceber quando, dentro de um agora, existe solidez suficiente para que um futuro possa existir. E acho que, quando aprendemos a identificar isso, acionamos menos o seguro da infelicidade. Arriscamos. Mesmo temendo o depois.
Porque talvez viver não seja acreditar que aquilo que nos faz bem vai durar para sempre. Talvez seja aceitar que a duração nunca esteve sob nosso controle e, ainda assim, escolher estar por completo diante daquilo que acontece.
Entre a racionalidade de tentar entender por que a vida coloca certas experiências diante de nós justamente quando menos esperamos e a vontade de viver aquilo que ela está apresentando, talvez devêssemos nos perguntar se faz sentido ter medo da felicidade. Não porque ela não possa acabar. Mas porque o medo de perdê-la antes mesmo de vivê-la também é uma forma de perdê-la.
Se a felicidade é capaz de assustar, talvez seja porque ela nos traz algum estranhamento. Ela nos tira do lugar conhecido, atravessa nossas certezas e nos apresenta uma versão de nós que ainda não sabemos sustentar, com a qual sequer sabemos conviver. Alguém que nunca experimentou a felicidade pode estranhar estar feliz, e vice-versa.
E talvez essa seja justamente a parte que precisamos aprender: não deixar de ter medo, mas deixar de fazer do medo uma forma de proteção, uma forma de controle, de silenciar sentimentos.
Porque algumas coisas boas não chegam para nos dar segurança, mas para nos carregar e nos levar para um lugar novo, capaz de nos transformar.
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