Nossos pedacinhos bonitos

entre o tudo e o nada há apenas o universo... | foto: oticacotidiana

Existe uma diferença sutil que nem sempre percebemos: há experiências que levam um pedacinho bonito da gente, e há experiências que arrancam um pedacinho bonito da gente.

O que é arrancado deixa ausência, demora a voltar, quando volta. O que é compartilhado permanece no outro sem nos empobrecer, porque nasce da abundância. Quem oferece o que transborda não se esvazia. Quem oferece o que não assusta dificilmente se pega paralisado.

Talvez a pergunta não seja quantas coisas você ainda suporta perder, mas quantas delas realmente merecem acesso ao que há de mais bonito em você. Há relações, lugares e momentos que exigem um preço alto demais: levam embora algo que não tinham o direito de tomar, ainda que você tenha se permitido.

Em contrapartida, existem encontros em que aquilo que você entrega não diminui quem você é. Pelo contrário: quanto mais circula, mais vivo se torna. A generosidade verdadeira tem esse paradoxo discreto de multiplicar o que parecia estar sendo dado.

E há uma última delicadeza que quase sempre passa despercebida: o pedaço bonito que lhe arrancaram pode nunca ser reconhecido como valioso por quem o levou. Talvez seja justamente isso que doa tanto. Só você conhece a falta que ele faz. Só você sabe o espaço que deixou, as marcas que abriu e o tempo que precisará para que esse lugar volte a florescer. 

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