O juízo final

entre versões e possibilidades | foto: oticacotidiana

O corredor é longo o suficiente para você não conseguir ver o fim. Em cada um dos lados, faces, expressões e olhares estranhamente familiares. Você anda, anda sem entender o porquê. Talvez por instinto, talvez pela típica sobrevivência-conveniência. O cansaço cai sobre os seus ombros e você para. No mesmo instante, os olhares se voltam para você em sintonia. E, no susto, enfim, você entende onde está e o que vai acontecer a partir daí.

É o dia do juízo final.

Nesse corredor infinito, cada uma das suas versões toma forma a partir de pedaços estranhamente conhecidos. Pedaços que você não lembra de onde vêm nem por que existem, mas que carregam uma conexão difícil de explicar. Há alguma coisa nelas que você reconhece antes mesmo de saber o que está reconhecendo. Um jeito de olhar, uma vontade, uma postura, talvez uma vida inteira condensada em uma expressão que parece familiar demais para ser de outra pessoa.

Elas trazem consigo a dúvida que parece estar na base daquele juízo final: como seria você se essa versão, abandonada naquele corredor, tivesse chegado a existir? Médico, astronauta, advogado, professor, jornalista, pescador, pedreiro, cozinheiro, cientista. Filho, pai, avô, irmão. Solteiro, casado, divorciado. Feliz, infeliz, ansioso, acomodado. Cada uma das suas versões carrega suas dúvidas, expectativas e a esperança de um dia se tornar protagonista. Carrega também a agonia da possibilidade e das consequências das suas escolhas, racionais ou não. Algumas parecem absurdas. Outras, quando você olha com mais atenção, poderiam perfeitamente ter sido você.

Mas você, nesse transe entre versões que deixou para trás, sente o peso especialmente daquelas que chegou a experimentar. Aquelas em que você ousou dar o sopro por alguns instantes e depois deixou de lado. Você sentiu o frescor da vida a ser vivida entrar para dentro do seu corpo e, por medo, cansaço, preguiça ou qualquer outro motivo, desistiu. Talvez nem tenha desistido de verdade. Talvez tenha apenas adiado, colocado para depois, escolhido alguma coisa que parecia mais urgente, mais segura, mais razoável. O problema é que algumas coisas, quando colocadas para depois, não voltam mais.

Você as enviou para o corredor das versões não vividas, sem direito de reação. Agora, no corredor do juízo final, vocês se encaram conectados pela mesma dúvida: como seria se ela tivesse tido uma chance de existir? Todas as suas versões possíveis, enfileiradas, não pedem mais para serem protagonistas. Pedem que você explique o porquê. Por que você decidiu não as viver? Por que deixou que elas passassem? Por que simplesmente ceifou qualquer possibilidade de elas existirem?

E você, muito calmamente — ou talvez fingindo uma calma, performando uma calma, como foi capaz de fazer durante toda uma vida — olha para cada uma delas e pensa:

— É, eu não tive muita escolha. Era o que eu podia fazer na época.

Mas as suas versões não aceitam essa resposta. A sua versão que mais lhe deixou em dúvida olha para você com um olhar de crítica, impiedoso, como se você tivesse tirado dela a única chance de existir. E você, de fato, fez isso. Você não a escolheu; escolheu outra, indefinida e que pareceu mais segura. E, para surpresa dela, você também a abandonou quando sentiu medo.

É talvez aí que o corredor fique mais difícil de atravessar. Porque algumas dessas versões não foram abandonadas porque eram impossíveis. Foram abandonadas porque você não soube, não quis ou não conseguiu descobrir até onde poderia ir com elas. Algumas morreram antes de fracassar. Outras morreram antes mesmo de começar. E existe uma diferença enorme entre descobrir que alguma coisa não daria certo e nunca descobrir se poderia ter dado.

Você está no corredor com todas as suas infinitas versões. Algumas ainda te causam medo; algumas, no entanto, te trazem paz. Te trazem paz porque você entendeu que, se tivesse dado a oportunidade, algumas talvez pudessem ter te destruído. Sim, existem versões de nós que são destrutivas. Existem escolhas que parecem covardia quando vistas de longe e que, de perto, talvez tenham sido apenas uma maneira possível de continuar. Existem portas que você lamenta ter fechado e outras pelas quais, olhando no futuro, agradece não ter passado.

Talvez a questão nunca tenha sido escolher qual versão viver e qual abandonar. Talvez tenha sido entender que qualquer escolha produz uma espécie de morte. Quando você vira à esquerda, alguma coisa fica à direita. Quando decide ficar, existe uma partida que deixa de acontecer. Quando escolhe alguém, existem todos os outros encontros que nunca saberá como seriam. Quando escolhe uma vida, uma quantidade quase infinita de outras vidas desaparece sem que você sequer tenha tempo de sentir falta delas.

Ainda assim, alguma coisa permanece. Você pode mudar de direção, experimentar uma coisa nova, voltar para onde esteve, descobrir que estava errado, começar de novo. Existe alguma coisa em você que atravessa essas mudanças sem ser exatamente a mesma coisa. Não é uma essência imóvel, nem uma identidade perfeitamente definida. É mais parecido com um fio que você só percebe porque, olhando para trás, consegue enxergar que certas coisas sempre estiveram conectadas.

Essas versões que aparecem ao longo da nossa vida, volta e meia, nos afrontam. Somos perturbados por uma inquietude do “e se”: o “e se” da coragem, o “e se” do medo, o “e se” da felicidade. O “e se” é uma grande armadilha porque parece uma pergunta, mas quase sempre é uma promessa. A promessa de que existe uma resposta escondida em algum lugar, uma versão da nossa vida que, se pudéssemos acessá-la, explicaria tudo.

Spoiler: Não explica.

Talvez porque não exista uma resposta. Talvez porque cada versão que imaginamos também carregue as suas próprias perdas, os seus próprios medos, os seus próprios corredores. A vida que parece perfeita quando vista de fora provavelmente teria produzido outras dúvidas, outras desistências, outros “e se”. A versão de você que hoje parece ter sido a escolha certa também teria encontrado maneiras de se perguntar se havia escolhido errado.

Mas existe uma inquietude ainda maior quando você olha no espelho e percebe que todas elas estão te encarando. Quando olha dentro dos seus próprios olhos, você sente o dia do juízo final. Sente a verdade bater na sua porta, a necessidade de respostas, alguma coisa estranha que não sabe muito bem como descrever. Sente uma vontade imensa de entender por que fez o que fez, por que não fez o que não fez, por que algumas coisas foram tão importantes e outras desapareceram sem sequer deixarem uma cicatriz visível. E dificilmente vai conseguir entender tudo.

Talvez essa seja a parte mais cruel do juízo final: as suas versões não estão ali para que você dê uma resposta satisfatória. Elas estão ali porque existiram como possibilidade. Certas ou erradas, melhores ou piores, desejadas ou abandonadas, elas fazem parte da história de como você chegou até aqui. Não é possível absolvê-las, porque não há crime. Também não é possível condená-las, porque não há culpa suficiente para explicar uma vida inteira.

E é aí que a escolha volta a aparecer, dessa vez não vem travestida de decisão, mas pela coisa que precisa ser feita outra vez. Seguir o coração é uma coisa tão clichê, mas tão difícil, porque seguir o coração pressupõe que a gente se conhece. E se conhecer em tempos de possibilidades e desvios tão rápidos talvez seja um dos desafios mais difíceis. Você pode passar anos tentando descobrir o que quer e, quando finalmente descobre, perceber que já não quer mais aquilo. Pode confundir medo com prudência, desejo com impulso, segurança com felicidade. Pode passar tanto tempo tentando tomar a decisão certa que, quando percebe, a decisão já foi tomada pelo tempo.

Talvez estar pronto também seja uma ideia enganosa. A gente espera estar pronto como se, em algum momento, fosse possível alcançar uma espécie de completude antes de começar. Como se primeiro precisássemos entender quem somos para depois viver. Mas talvez seja justamente o contrário. Talvez uma parte importante de quem somos só apareça depois que alguma coisa acontece, depois que escolhemos, depois que erramos, depois que descobrimos que aquela versão que imaginávamos ser não era exatamente nós.

A perfeição, se é que existe alguma coisa que mereça esse nome, não parece estar na ausência de erro. Ela está mais perto daquilo que conseguimos fazer com o que sobrou. Com as coisas que não funcionaram, com os planos que perderam sentido, com as escolhas que deram errado, com aquelas que deram certo pelos motivos errados, com os encontros que ficaram e com os que não ficaram. A perfeição talvez seja menos uma condição e mais uma leitura que fazemos depois, quando finalmente conseguimos enxergar algum desenho naquilo que, durante muito tempo, parecia apenas uma coleção de acidentes.

Talvez demore muito tempo. Talvez demore toda uma vida para perceber o quanto desperdiçamos tempo tentando ser alguma coisa que nem sabíamos que poderíamos ser.

E talvez seja por isso que, na próxima vez que todo esse juízo final bater na sua porta, bater nos seus olhos — ainda que estejam cheios de lágrimas —, você possa olhar para essas versões que estão na sua frente, enfileiradas uma a uma, e não tentar explicar tudo. Talvez você apenas reconheça cada uma delas.

Aquela que você abandonou por medo. Aquela que abandonou você. Aquela que parecia impossível e aquela que parecia segura demais. A que poderia ter dado certo. A que talvez tivesse dado muito errado. A que você ainda sente falta sem saber exatamente do quê.

E talvez, diante delas, você consiga entender uma coisa que não estava disponível quando precisou fazer cada uma das suas escolhas: nenhuma delas tinha como saber o que você sabe agora e nem você.

Porque o presente é sempre um passo à frente do que o passado. A gente olha para trás com as informações que só conseguiu reunir depois e chama de erro aquilo que, naquele momento, era apenas uma escolha possível entre muitas. Por medo, coragem ou covardia. Foi o que deu para fazer. E isso, claro, não vai transformar todas as escolhas em boas escolhas e nem seria necessário. Mas talvez seja suficiente entender que a pessoa que escolheu também estava tentando descobrir quem era. E que a versão perfeita, aquela que você passou tanto tempo procurando, nunca esteve esperando em algum lugar do corredor. Ela foi sendo construída, aos poucos e sem muito planejamento, pelas versões imperfeitas que você experimentou, pelas que abandonou, pelas que não teve coragem de viver e pelas que, apesar de tudo, conseguiram chegar até aqui.

No fim, talvez o juízo final não seja o momento em que descobrimos qual versão de nós estava certa. Talvez seja o momento em que finalmente percebemos que não existe uma única versão para ser julgada e nem razões para se perder em julgamentos. Nenhum julgamento é necessário, no final das contas, porque a realidade é um conjunto inteiro em movimento.

E todas aquelas faces estranhamente familiares continuam ali, olhando para você, porque cada uma delas sabe alguma coisa que você demorou uma vida para entender: sem as versões que não chegaram a existir, a versão que existe também não teria chegado a ser quem é.

 

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