Sobre as 'terapias em dia' e a 'coitadolândia'

um mercado, uma fila, reflexões... | foto: oticacotidiana 


Outro dia eu estava na fila do supermercado de bairro, cheia como em todo começo de mês, e uma senhora estava estressada com a demora. Um rapaz ao meu lado, devia ter uns 30 anos, estava com roupa de academia e uma ecobag, começou a puxar assuntos aleatórios comigo e, observando o comportamento dela, não resistiu: “essa daí não deve estar com a terapia em dia”.

Sorri meio sem graça e aquilo ficou na minha cabeça. Não pela senhora, coitada, que provavelmente só estava irritada, mas pela facilidade com que a terapia virou uma espécie de análise de comportamento. E a gente meio que aprendeu a observar os outros a partir de um simples comportamento banal e atestá-lo com algum desvio ou até alguma doença mental. E isso passa, evidentemente, por colocar quem faz essa classificação do outro numa posição mais alta da evolução humana, uma espécie de cartão black que o diferencia dos meros mortais.

Lembrei também de um aplicativo de relacionamento em que várias bios traziam a frase: “Esteja com a terapia em dia. Eu estou com a minha”. Fiquei pensando no que exatamente aquilo queria dizer. Talvez vários nadas. Talvez fosse apenas uma maneira de dizer que a pessoa se cuidava e que não ia aceitar pouco. Mas existe algo curioso nessa frase que permaneceu comigo tal qual o post que vi há alguns dias de uma pessoa chamando de “coitadolândia” o lugar onde vivem aqueles que não fazem terapia e continuam reclamando da vida, foi o auge para pensar um pouco mais no assunto.

Essas situações despertaram um leve gatilho de desconfiança em quem anuncia a terapia em dia como se estivesse informando uma qualificação superior. Não da terapia, claro. Cuidar da saúde mental é sério, necessário e, muitas vezes, difícil e nem todo mundo consegue. O que me incomoda é quando isso vira selo de qualidade, atestado do Inmetro, uma espécie de certificado de pessoa minimamente aceitável, funcional... uma pessoa pronta para viver em sociedade melhor que as outras.

Se abro um perfil e leio “Esteja com a terapia em dia”, não tem como não ficar com pé atrás. Porque, veja, quem faz terapia e está bem, não precisa dizer aos quatro cantos que é superior por isso. Ela, inclusive, tende a ter a sensibilidade de entender que cada um tem seus processos e momentos e que não cabe a ela julgar ou atestar qual grau. Ela dificilmente vai classificar pessoas entre piores e melhores por isso. Ela, terapeutizada, só vai saber lidar melhor com suas escolhas e seus medos.

Inclusive, tem um discurso que costuma vir junto: o “deixe de mimimi”, o “saia da coitadolândia”, o “corra atrás”, “faça acontecer”. Todo um empreendedorismo de autocuidado em que diz sutilmente que cada um deve produzir, melhorar, se organizar, se curar e, de preferência, parecer bem enquanto faz tudo isso. É uma lista interminável de coisas para resolver em si mesmo, em silêncio, acompanhada da sensação permanente de que alguma coisa está faltando e aí, até sofrer ganha caráter de falha de entrega e desempenho.

Contudo, às vezes, você vai precisar estar na coitadolândia. E, spoiler: não é o fim dos tempos. Talvez você passe um tempo ali porque perdeu alguém, porque uma relação acabou, porque fez uma escolha ruim, porque está cansado, porque não sabe o que fazer da própria vida ou simplesmente porque existem períodos em que a gente não funciona muito bem. Estar vulnerável não diminui ninguém. Às vezes o problema não é cair ali, mas achar que aquilo é uma condição permanente ou, pior, imaginar que os outros nunca caem. É uma rua que às vezes você vai ter que atravessar, e o farol pode estar fechado por um tempo, tempo suficiente para você se organizar.

O que me incomoda ainda mais é perceber que, em muitos casos, o discurso da terapia em dia vem acompanhado de uma curiosa absolvição de si mesmo. A pessoa nunca foi a vilã de nenhuma história. O tóxico, o emocionado, o ferido, o iludido são sempre o outro. O “inferno são os outros”: o erro está no outro, o desajuste está no outro, a falta de consciência e clareza está no outro. Ela, alecrim dourado, só reagiu, e de maneira perfeitamente coerente, porque, veja só, está com a terapia em dia e é evoluída o bastante para diagnosticar o que se passa na cabeça de alguém que, na verdade, é um abismo de possibilidades.

E aí eu começo a desconfiar. Porque, se existe alguma coisa pouco confortável na terapia, é justamente a possibilidade de descobrir que você também participa daquilo que reclama. Que às vezes você escolheu mal, foi injusto, o tóxico, o ruim, o que feriu alguém. Nenhum terapeuta trabalha para atestar que você é inocente ou vilão. A vida real tende a ser mais complexa do que essa divisão tentadora que fazemos tentando superar nossas dores. E tem algo ainda mais relevante que é a criticidade no seu próprio processo de entendimento: se o autoconhecimento não produz nenhuma dúvida sobre nós mesmos, talvez haja alguma coisa estranha nesse autoconhecimento.

Também não acredito nessa ideia de que fazer terapia impede alguém de errar. Você pode se conhecer bastante e continuar escolhendo mal. Pode entender perfeitamente um padrão seu e, mesmo assim, repeti-lo. Pode saber que uma relação não faz bem e continuar nela.

E, quando isso acontece, é tentador encontrar uma explicação elegante para o comportamento alheio. A infância do outro, o trauma do outro, o signo do outro, a falta de maturidade do outro. Qualquer coisa que nos permita não olhar para a nossa própria participação na história. É muito mais difícil admitir: eu sabia e fiquei. Eu percebi e continuei. Eu também tive responsabilidade nisso.

No fim, o que me parece estranho é essa necessidade de transformar tudo em uma espécie de atestado de superioridade, algo que você pendura no pescoço e deixa que os outros te reconheçam a partir disso. Que te idealizem a partir disso. E, se isso acontece, também tem seu peso. Talvez as pessoas façam isso por uma necessidade típica do nosso tempo: de provar que tem valor, que está fazendo a coisa certa e merece ser recompensada por isso. 

Há toda uma estética do autocuidado, uma maneira correta de falar de si que a gente reproduz sem pensar muito bem. Tudo precisa parecer resolvido, até quando está em processo de resolução. E, se possível, com uma boa foto no Instagram. É mais fácil escrever numa bio “terapia em dia” do que dizer: estou tentando entender quem sou, às vezes acho que entendi e depois descubro que não, e ainda não sei muito bem o que fazer com algumas coisas que sinto.

E não, eu não sou o hater das terapias, inclusive amo. Minha desconfiança é com quem transforma isso na credencial do céu, a autorização quase santificada para julgar o processo de cada um. Fazer terapia não coloca ninguém acima de ninguém. Não dá licença para diagnosticar o comportamento alheio e muito menos elimina a parte desagradável de ser uma pessoa.

Num dia qualquer talvez você entenda que se conhecer um pouco mais não te faz alguém superior porque o sentimento de superioridade só faz sentido se você precisa ocupar esse lugar na sua identidade. Se você está bem consigo mesmo, sabe dos seus tropeços e acertos e das suas ‘dores e delícias’, você não vai precisar medir ninguém. E mesmo achando que está fazendo tudo certo, com sua ecobag na mão e cuidando do seu corpo e mente, isso não te torna um super-humano. 

Na realidade, é mais provável que perceba o tamanho das suas escolhas e renúncias e do quanto eles podem trazer medo e incertezas, mas também desejo e alívio. E essa é a incerteza que nos mantém como humanos, em um mundo que tira a nossa humanidade até quando estamos buscando cuidar da nossa saúde mental. E se você precisar atravessar a coitadolândia, não é o sinal do fim dos tempos; é mais uma prova de que ainda conseguimos viver nosso lado humano com alguma naturalidade.


Ouça também o podcast "Foi tentando ser feliz". Acesse aqui.


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