Atração
![]() |
| os acasos, sincronicidades e atrasos... | foto: oticacotidiana |
O universo tem um único defeito: ele não é capaz de te pedir licença. Ele não espera você se sentir pronto, confortável ou seguro. Ele chega com suas pancadas secas, seus encontros estranhos, suas coincidências que ressoam demais para serem acaso. E você fica ali, parado, calculando se os próximos passos vão te afundar ou flutuar, como se tivesse algum controle sobre o chão que vem depois.
Spoiler: não tem, nunca tem.
E o que parece resistência sua, a tal racionalidade, esse freio de mão puxado com força, é, na verdade, parte do próprio movimento. Porque existe alguma coisa que já começou antes de você perceber. O universo sabe o que você carrega, o que você abafa, o que você adia. Sabe dos seus temores e das suas expectativas, sabe o tamanho exato daquilo que você está tentando não querer. E sabe também que, se você atravessar aquela porta, não vai sair do outro lado sendo exatamente quem entrou. Vai ter que se reconstruir do avesso.
Por isso ele insiste. Não com placas luminosas ou vozes celestiais, mas com situações ordinárias que, isoladas, parecem não significar nada. Um encontro que acontece no dia errado. Uma conversa que permanece na cabeça mais tempo do que deveria. Uma coincidência que volta a acontecer quando você já tinha decidido ignorá-la. Você segue chamando de acaso porque acaso é uma palavra confortável, ela não exige decisão. Só que algumas coisas continuam acontecendo mesmo depois que você decidiu não olhar.
Você acha que está escolhendo. Que está ponderando, esperando o momento certo, tentando distinguir impulso de intuição. Mas a atração já está em curso, mais densa que sua vontade, mais antiga que seu medo. O ímã não pergunta se você quer ser puxado, ele puxa. E você sente o esticamento nos ossos, aquela tensão entre o que você finge que é e o que, em algum lugar mais profundo, já sabe que vai ter que ser.
Talvez seja por isso que certas histórias se repetem. O looping é implacável: a mesma encruzilhada, o mesmo aperto no peito, os mesmos sinais que você insiste em chamar de falta de timing. Você muda a justificativa, muda o contexto, muda até a maneira de contar a história pra si mesmo, mas alguma coisa permanece no mesmo lugar, esperando que você finalmente pare de chamar de coincidência aquilo que já reconheceu como desejo.
Até que a porta range. Range de novo. E começa a fechar.
E aí a pergunta já não é mais sobre coragem. Está mais próxima, na verdade, sobre a memória futura: a versão de você que ainda não existe vai olhar pra trás e agradecer por ter atravessado, ou vai sentir o gosto amargo de ter ficado, seguro, intacto e irremediavelmente menor?
Porque talvez essa seja a crueldade do universo: ele não precisa nos obrigar a nada. Basta continuar andando enquanto nós hesitamos. Ele não é obrigado a conservar indefinidamente aquilo que colocou diante de nós. Algumas portas permanecem abertas por muito tempo; outras só ficam entreabertas o suficiente para que você perceba que estavam ali. E não existe garantia de que aquilo que hoje parece inevitável continuará esperando amanhã.
O universo não volta atrás. Não porque seja cruel, mas porque movimento é movimento. O instante passa, a pessoa muda, a circunstância se desfaz, a porta encontra o seu batente. E uma hora, o empurrão deixa de ser convite e vira fim.
∞∞∞
👀 Já ouviu falar de Mar Negro?
Em Mar Negro, nada é o que parece. Um suspense intenso, com reviravoltas de tirar o fôlego e um final que vai mexer com você por dias.
Se você gosta de histórias que te viram do avesso, essa é pra você.


