Grades com Wi-Fi

o mundo passa pelos nossos dedos... | foto: oticacotidiana

Convenceram-nos, aos poucos e sem alarde, de que apartamentos eram mais práticos do que casas, e não mentiram: talvez fossem mesmo. Menos manutenção, menos deslocamento, menos trabalho. Mas também menos quintal, menos varanda, menos encontros que invadem a noite sem hora para acabar, sem regras de condomínio interrompendo a vida e, claro, sem virar notícia no grupo do WhatsApp do condomínio. Descobrimos que, quando a vida encolhe por fora, ela costuma aprender a encolher por dentro.

E é preciso dizer logo, antes que este texto vire nostalgia disfarçada de crítica: as casas e as ruas nunca foram perfeitas. Nunca ouvi dos meus pais ou avós que eles gostavam de arrumar o quintal, nem que havia paz. Talvez os ladrões roubassem só galinhas, mas roubo é roubo, não? Nunca existiu convivência sem atrito, porque paz e humanidade na mesma frase ainda estão em construção. O conforto que temos hoje não é desprezível a ponto de nos prendermos à saudade de um tempo que não vivemos. Ainda assim, a comparação entre tempos é inevitável, porque o presente se mostra como um contraste que nos afeta por dentro e por fora.

Pouco a pouco sentimos que os shopping centers eram melhores do que as ruas. E, de certo modo, eram. Na rua há calor, chuva, insegurança, improviso e gente imprevisível. No shopping tudo funciona como deveria: a temperatura é controlada, a música é escolhida, o percurso é calculado e até a permanência é cuidadosamente estimulada. A cidade deixou de ser um lugar para ser vivido e passou a ser um espaço de conexão entre ambientes privados. É uma pena que com isso tenham ido embora os cinemas de rua. Mais um efeito colateral que talvez eu não consiga perdoar.

Nos anos 2000, no auge da adolescência dos millennials, prometeram que conheceríamos mais pessoas pelas redes sociais. Cumpriram a promessa e dobraram a aposta: em pouco tempo já tínhamos nomes de usuário e nicknames duvidosos no MSN. Talvez tudo tenha sido rápido demais, e nem estivéssemos prontos para o que viria: nunca tivemos acesso a tantos rostos, tantas opiniões, tantas vidas e corpos diferentes. Spoiler: cansa. Conhecer culturas novas é uma delícia, mas onde relações são possíveis, comparações também surgem.

E algo curioso brota desse vai e vem de mensagens visualizadas e ignoradas: o tempo necessário para conhecer alguém foi sendo substituído pela facilidade de segui-lo e reagir a um story. A intimidade perdeu profundidade e ganhou velocidade. O mesmo toque que inicia uma relação também pode encerrá-la. E, pasme, a gente se orgulha dessa facilidade.

Depois nos ensinaram outra lição, mais soft: que amizades de baixa manutenção eram mais práticas, que disponibilidade era carência, que insistir era inconveniente. Ali, nossa vulnerabilidade aprendeu a se esconder e a jogar jogos patéticos de interesse. Chamaram de maturidade emocional o que antes seria simplesmente falta de interesse.

O afeto, antes cultivado como permanência, virou investimento, quase um ativo da Ibovespa: entrega-se pouco, espera-se menos ainda, substitui-se rápido. Até os relacionamentos amorosos aprenderam essa lógica. Duram o tempo suficiente para não exigir responsabilidade, ou mesmo uma nomenclatura que determine o que se está vivendo, e terminam antes que seja preciso construir alguma coisa — isso quando saem da zona dos desconhecidos. Vivemos tempos de visualização única, e chamamos isso de estar disponível para todas as possibilidades.

Chamaram toda a nossa vivência moderna de liberdade. Talvez seja. Mas vale perguntar: que tipo de liberdade?

E essa liberdade, importante notar, tem endereço certo: o mercado. Existe um curioso interesse econômico em pessoas que não criam raízes, afetos ou expectativas. Quem muda de emprego com facilidade tende a consumir cursos. Trocar de cidade significa comprar coisas novas. Mudar de celular significa status e seguir tendências. E aqueles que trocam os parceiros, bom, esses costumam continuar por aí procurando, instalando e desinstalando aplicativos, pagando assinatura e rolando o feed até encontrar alguém para chamar de mozão. Quem nunca está satisfeito — porque vive comparando a própria vida com a de outros — movimenta mercados inteiros com sua insatisfação.

Talvez o maior produto da vida moderna não sejam os smartphones, os aplicativos ou os apartamentos studio, que têm seu valor e dos quais dificilmente abriríamos mão hoje. Talvez seja um novo tipo de indivíduo: aquele que é permanentemente disponível para a próxima novidade. Alguém treinado para desejar antes mesmo de possuir, descartar antes mesmo de conhecer, substituir antes mesmo de arrumar. É tentador dizer que no tempo da nossa avó se consertava em vez de trocar, e de fato se consertava. Contudo, a nossa realidade é mais complexa que isso, e essa não é a régua certa para medir o presente.

Nessa lógica, também foram nos ensinando que mostrar era mais importante do que viver. Essa foi, talvez, a mudança mais silenciosa de todas. Porque já não basta viajar; é preciso registrar, refazer a trend, garantir que as fotos obedeçam a um script aesthetic. Afinal, um like é um reforçador de relevância social. Já não basta ler um livro; é preciso fotografá-lo. E, claro, não basta ter uma opinião: é preciso fazer dela um conteúdo com gancho viral de cinco segundos. Aos poucos, deixamos de perguntar quem somos para perguntar o que ainda pode ser publicado e em qual horário, já que é o algoritmo quem decide o lugar de cada um no hall dos conteúdos mais compartilháveis.

A vida moderna multiplica possibilidades como nenhuma outra época conseguiu, e isso é um feito extraordinário. Mas possibilidade não é liberdade. Um catálogo infinito também pode paralisar. Ter mil portas abertas não significa atravessar alguma. Significa, muitas vezes, passar a vida inteira convencido de que a próxima será melhor. Quantas experiências deixamos de viver por inteiro por acreditar que o futuro guarda algo superior?

Há outros pontos irônicos diante disso tudo: temos formas de comunicação, mas nos sentimos solitários e talvez ansiosos; temos formas de nos mover, e conhecemos apenas o que nossas bolhas e zonas de conforto nos entregam. Há informação abundante, e nem assim conseguimos entender o mundo. Falamos tanto sobre autenticidade enquanto algoritmos decidem o que veremos, o que desejaremos e até aquilo que julgamos espontâneo. Esse é, talvez, o trágico dessa ironia.

Talvez ninguém tenha precisado nos obrigar a viver assim. Sistemas inteligentes raramente funcionam pela força: funcionam pela recompensa. E poucas recompensas são tão eficazes quanto aquelas que alimentam o ego enquanto se disfarçam de prazer momentâneo. Tornam confortável aquilo que antes pareceria estranho, até que deixemos de perceber que nossos hábitos já não nasceram de nós, mas das estruturas que aprendemos a chamar de naturais.

E talvez esse seja o maior triunfo da vida moderna: não controlar pessoas, mas convencê-las de que nunca estiveram tão livres, de que a felicidade e o bem-estar são acessíveis a todos. Só que não há prisão mais eficiente do que aquela cujas grades parecem escolhas: grades discretas, bem iluminadas, conectadas à internet, entregues em poucos minutos, atualizadas na próxima versão. Nelas quase ninguém sente vontade de escapar. Afinal, fomos nós que clicamos em "aceitar".

Será que um dia seremos capazes de desinstalar o que parece agora impossível?

Talvez o tempo nos responda. Ou talvez ele apenas nos mantenha ocupados o suficiente para que deixemos de fazer a pergunta.

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