Experimentação da expectativa
Ou aquilo que é de visualização única. Uma reflexão sobre a dificuldade de nomear aquilo que chega com cara de eterno e vai embora antes do previsto. E sobre o desconforto de, às vezes, descobrir que o efêmero também mora na gente
Eu acho que tenho dificuldade de lidar com o efêmero. Com as coisas descartáveis. Com o que chega embalado como se fosse durável e, antes mesmo da garantia acabar — ou sem garantia alguma — já não funciona, já é passível de descarte.
Tenho dificuldade com o efêmero porque a única função dele é bagunçar. Bagunça o que está organizado, mexe na sua estrutura, desloca aquilo que você acreditava estar no lugar. O problema do efêmero é que ele é mais do que uma expectativa: ele é uma experimentação da expectativa. É como receber uma amostra grátis daquilo, embalada num papel celofane bonito, colorido, cheio de firulas e fogos de artifício. Você se encanta. Começa a acreditar que aquilo é mais do que realmente é. Que pode durar.
Mas o efêmero nunca se vende como efêmero. Se fosse honesto o bastante para se mostrar como tal, talvez pouca gente tivesse coragem de encará-lo. Ou talvez o encarássemos como algo natural, algo que usamos uma vez e pronto. Como um prato descartável. Você não sente apego por um prato descartável. Sente?
O problema é quando o efêmero veste o lugar do sólido. Quando ocupa o espaço do único, do presente que parecia durável. É aí que ele bagunça tudo. Faz você caminhar por lugares que não imaginava que existissem. Depois você percebe que era só o efêmero. E talvez doa menos pelo fim do que pela permanência que parecia existir.
Eu sei que é difícil lidar com ele, e acho que nunca vou me acostumar. Se existisse uma vacina, uma caneta milagrosa que me fizesse evitar o efêmero, eu evitaria. Por um motivo só: eu não comporto o que é passageiro. Não comporto o que bagunça sem transformar, o que atravessa e não permanece. Talvez existam encontros efêmeros que transformem alguém. Eu só nunca aprendi a lidar com aqueles que deixam apenas a bagunça.
Assumi para mim que tenho essa dificuldade, e não vejo problema nisso. Talvez dizer isso em voz alta seja até uma solução. Porque, quando o efêmero aparecer de novo, talvez eu não o encare com tanto amargor. Talvez ele não me pegue de calças curtas. Mas reconhecê-lo continua sendo difícil. Porque ele sempre chega com papel celofane bonito. Você abre, usa, experimenta, e logo o conteúdo some. Se esvazia. Vira estranheza.
E você fica pensando: o que aconteceu nas últimas vinte e quatro horas? O que mudou? Qual foi o movimento dos astros?
Só que, às vezes, nada mudou.
Às vezes o outro também é efêmero. Não tem estrutura para ficar. Precisa viver tudo de uma vez para continuar se sentindo vivo. E a gente se apega achando que o outro é alguma coisa, quando talvez nem ele saiba exatamente o que é. Talvez nunca tenha parado para pensar de onde vem essa urgência.
Mas e se eu também for o efêmero?
E se, em alguma história que não é a minha, eu for aquele que chega embalado em papel celofane bonito, promete uma permanência que nunca existiu e desaparece antes do amanhecer?
Essa é a parte mais desconfortável.
A gente nunca se enxerga como a passagem. Sempre se imagina como quem ficou, como quem esperou, como quem sustentou a estrutura, a parte bonita da relação. Mas talvez eu já tenha sido o efêmero de alguém sem perceber. Ou percebendo, e escolhendo não olhar por muito tempo. Porque admitir que você também passa pela vida de alguém deixando perguntas é mais difícil do que reclamar de quem passou pela sua. Talvez eu também tenha bagunçado alguém. Talvez tenha deixado estranheza onde o outro esperava presença.
E isso... isso não vem embalado em papel celofane bonito. Vem num silêncio que, quase sempre, a gente prefere não ouvir.
Então talvez o meu problema com o efêmero nunca tenha sido só ele.
Talvez seja o espelho. Porque, no fundo, eu queria uma vacina contra o efêmero para não precisar lidar com ele. Mas também para não precisar lidar com a possibilidade de ser ele. E essa possibilidade bagunça mais do que qualquer fogo de artifício.
E só agora me peguei pensando que talvez eu esteja chamando tudo isso de efêmero por falta de uma palavra melhor. Porque, pensando bem, o efêmero nunca foi exatamente o meu problema. Eu nunca sofri porque um show acabou. Nunca me revoltei porque uma viagem terminou. Nunca esperei que um pôr do sol durasse mais do que alguns minutos.
O que me desmonta não é o que passa. É o que chega parecendo que fica. A aparência de permanência. A experimentação da expectativa de permanência.
Eu queria uma vacina. Uma fórmula. Um selo na testa do efêmero dizendo: "sou efêmero". Queria que ele tivesse a honestidade de assumir o que é. Porque, quando alguém assume o que é, dificilmente você se engana. E, se mesmo assim se enganar, foi uma escolha. Mas, quando o efêmero se apresenta como aquilo que não é, resta uma sensação difícil de nomear. Não porque ele tenha ido embora. Mas porque prometeu uma permanência que nunca podia entregar.
No fim, o meu maior problema não é mesmo a partida, mas a bagunça que sempre fica depois. E a possibilidade de descobrir que, às vezes, essa bagunça também foi minha.
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