O pobre de direita e o mito da ascensão social
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| o mito da classe média | foto: oticacotidiana |
O problema central da divisão entre esquerda e direita, entre pobres e ricos, é que uma parcela do pobre brasileiro deixou de se enxergar como pobre. Comprou um carro, talvez tenha conseguido financiar um apartamento, faz uma viagem de vez em quando, tem um emprego e, a partir dessas pequenas conquistas, passa a se imaginar do outro lado da fronteira social. A sensação de pertencimento à classe média pode desaparecer no instante em que o salário deixa de cair na conta. Se perder o emprego, boa parte dessa segurança construída se desfaz.
Ainda assim, ele dificilmente se reconhecerá como alguém que depende de políticas públicas ou que possa se beneficiar de determinadas ações do Estado. As próprias conquistas passam a ser percebidas como resultado exclusivo do esforço individual, como se tivessem acontecido em um vazio, sem escola pública, sistema de saúde, infraestrutura, direitos trabalhistas, crédito subsidiado ou qualquer outra estrutura coletiva que também participe, direta ou indiretamente, da vida de milhões de pessoas.
Por isso, essa pessoa não se enxerga como pobre. E talvez aí esteja uma das contradições mais profundas da nossa política. O brasileiro médio tem enorme dificuldade de enxergar o país como uma construção coletiva. Se a vida está funcionando minimamente para ele, pouco importa o que acontece com quem está ao lado. Em cada eleição, em vez de discutirmos um projeto de país, discutimos a própria realidade a partir de uma mistura de alienação, fake news, ódio e ressentimento.
Também existe uma expectativa permanente por um salvador da pátria: alguém que apareça prometendo resolver, em quatro anos, problemas que foram construídos ao longo de séculos. E existe uma dimensão cultural nisso. O brasileiro mal consegue esperar alguns minutos em uma fila; como esperar, então, por resultados que exigem décadas de planejamento, continuidade e políticas públicas consistentes?
É nesse cenário que o pobre de direita pode acabar defendendo contra si mesmo aquilo que acredita estar defendendo em seu próprio benefício. Ao abraçar a moral e os “bons costumes” como forma de se diferenciar dos pobres, ele tenta afirmar uma distância social que, na prática, pode ser muito mais frágil do que imagina. O problema é que a condição econômica não se transforma apenas porque alguém passou a acreditar que pertence a outra classe.
Cedo ou tarde, uma política que reduz direitos, enfraquece proteções ou torna a vida mais difícil pode bater à sua porta. E, quando isso acontecer, talvez fique evidente que a distância que ele imaginava existir entre ele e “os pobres” era muito menor do que parecia. Nesse momento, não haverá Supremo nem esquerdistas para aparar as consequências.
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