Um abismo chamado tempo do outro
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| o tempo do outro é um tempo indefinido | foto: oticacotidiana |
Talvez você já tenha escutado que estamos sempre aprendendo com o outro. É um clichê universal fofinho e não é falso: de fato estamos, e não há como escapar. Mas será que fazemos isso de forma espontânea ou por obrigação?
Sobretudo porque aprender com o outro significa, principalmente, aprender a lidar com o seu próprio tempo. E aí estamos diante de uma universidade em que a matéria toca fundo, mas quase todos gostaríamos de matar as aulas. E, convenhamos: pouca gente tem vocação para essa aprendizagem. É como aqueles cursos de exatas em que entram trinta e se formam três. É o curso do tempo do outro.
O tempo do outro quase nunca coincide com o nosso. Quando há algo importante em jogo, essa diferença, esse descompasso da espera, começa a incomodar. Queremos saber quando a pessoa vai perceber, quando vai entender, quando vai decidir, quando finalmente vai dizer aquilo que, para nós, já parece tão evidente. É como mandar uma mensagem no WhatsApp, ver os dois checks e pensar: ué, se já chegou, por que ainda não fui respondido?
Temos a mania curiosa de querer controlar até o que deveria nos surpreender. Planejamos a carreira, a viagem, a mudança, o dinheiro, as marmitas da semana. Se é assim, naturalmente nos perguntamos: por que não planejaríamos também o amor? Há quem queira saber quando deve se entregar, em que termos e sob quais condições, de preferência sem que isso lhe cause pânico. Qual é a hora certa de demonstrar interesse? Quantos sinais bastam para arriscar? Quanto tempo é razoável esperar por uma resposta?
Como se fosse possível organizar o afeto numa agenda e marcar: terça-feira, 19h, apaixonar-se; quinta-feira, conversar sobre o futuro; domingo, adotar o Golden Retriever. Tudo em bloquinhos coloridos e na agenda do Google. A questão é que o outro está vivendo o seu próprio tempo, e nele as coisas acontecem sem a nossa autorização.
Ele pode estar sentindo alguma coisa e ainda não saber o nome. Pode perceber e resistir. Pode querer e fingir que não quer, com a maestria que nos faz acreditar que a indiferença é o seu nome do meio. Pode sentir amor, medo, desejo e dúvida quase ao mesmo tempo. Enquanto isso, vai deixando sinais pelo caminho: uma frase que escapa, uma vontade súbita, um toque, um olhar que demora, uma ausência que começa a fazer falta. Pequenas coisas que talvez nem ele saiba que está dizendo. E nós, que temos pressa, queremos interpretar tudo.
O ansioso quer saber quando será a próxima prova antes mesmo de a aula terminar. O líder quer saber quando a entrega estará pronta. O apaixonado quer saber quando poderá viver o amor. Existe uma urgência particular em quem sente: a sensação de que alguma coisa precisa acontecer logo porque, se já está acontecendo dentro de mim, por que ainda não aconteceu entre nós? Só que o nós é um terreno arenoso. Para caminhar de mãos dadas ali, algumas tentativas de controle precisarão ruir.
Cada pessoa chega a si mesma em velocidades diferentes: uns em 2x, outros em 0,5x. Às vezes a vida precisa empurrar. Um encontro espontâneo, uma despedida, uma noite de insônia, uma situação qualquer produz a faísca que faltava. Aquilo que vinha sendo segurado encontra uma brecha e aparece. E, não. Não é porque finalmente obedecemos ao tempo certo, mas porque já não foi possível continuar fingindo que não estava ali.
Talvez o difícil seja justamente esse intervalo: quando já sentimos, mas o outro ainda está chegando. Quando os sinais existem, mas não sabemos se são sinais. Quando gostaríamos de acelerar aquilo que só pode acontecer espontaneamente. E quiçá seja por isso que o tempo do outro nos ensine tão pouco sobre paciência e tanto sobre desejo. Porque esperar alguém também é descobrir o quanto queremos que alguma coisa aconteça, e o quanto somos capazes de suportar enquanto ela não acontece.
Há sentimentos que chegam com urgência. Não pedem planejamento, não respeitam calendário nem lógica, não esperam que estejamos preparados e, spoiler: quase nunca estamos preparados para o que ainda não vivemos. O irônico é que, para experimentar justamente aquilo que não conseguimos controlar, quase sempre precisamos aprender a não exigir que o outro tenha a mesma pressa.
Enquanto isso, o outro segue vivendo. E nós também. Às vezes na mesma direção, às vezes em sentidos completamente opostos. A roda gira e, vez ou outra, mudamos de posição: quem esperava passa a ser esperado; quem não entendia passa a não ser entendido. Cada um deixando sinais pelo caminho que talvez só façam sentido depois. Ou talvez nunca façam.
Nós queremos respeitar o tempo do outro, mas não sabemos se conseguimos suportar aquilo que o tempo do outro significa para nós. Talvez esse seja o verdadeiro purgatório: não saber em que ponto do tempo do outro estamos, enquanto tentamos desesperadamente descobrir em que ponto estamos no nosso.
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