O que o tempo realmente faz
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| o tempo não amadurece, ele dilui | foto: oticacotidiana |
Aos vinte anos, é possível já ter vivido muita coisa, inclusive traumas que moldaram cedo quem você é, com dramas e delícias que não se repetem do mesmo jeito aos cinquenta. São tempos diferentes, com desafios diferentes. A diferença não está no volume do que se viveu, mas na forma como se consegue digerir isso.
Quem tem quarenta sentiu o tédio do tempo passando, viu as oscilações da vida se repetirem e se distribuírem aos poucos, e isso muda a densidade com que essas experiências são carregadas. Quem tem vinte, mesmo vivendo intensamente, ainda não teve tempo suficiente para que a repetição fizesse seu trabalho: o de desgastar a dor até ela virar rotina, até virar tédio. Algo que algumas pessoas chamam de "pessoa calejada". Não gosto muito dessa definição, porque ela sugere que nada mais seria capaz de abalar alguém assim, e não é bem por aí. Essas pessoas sentem, e sentem intensamente. Talvez só consigam administrar os desafios com mais maestria.
É curioso pensar nisso porque "dar tempo ao tempo" é repetido à exaustão sempre que alguém enfrenta algo difícil. Fiquei pensando no que esse tempo realmente faz, e a resposta mais honesta que encontrei foi: ele dilui intensidades, reorganiza sentimentos, silencia medos e nos empurra na direção das nossas melhores versões. Ou, pelo menos, nos dá a chance de tentar chegar lá. Porque também acontece, com frequência, de o universo, a vida, ou o que quer que você acredite que nos guia, nos beliscar para viver algo, e a gente ignorar, seja porque não se sente pronto, seja porque simplesmente não consegue enxergar a oportunidade.
Olhando para trás, percebo que o que mudou em mim não foram os valores. Respeito, amor, responsabilidade continuam os mesmos. O que muda é a sensibilidade para encará-los e a complexidade com que passamos a experimentá-los.
Por exemplo, o amor que existe aos vinte talvez seja tão verdadeiro quanto o amor dos quarenta. O que muda não é a sinceridade do sentimento, mas a quantidade de camadas que ele passa a carregar. Aos vinte, amar pode significar intensidade. Mais tarde, permanência. Também pode significar renúncia, silêncio, cuidado, presença. O valor continua sendo o mesmo; é a nossa capacidade de experimentá-lo que amadurece. Opinião e gosto mudam sem precisar de tempo nenhum. Valor exige tempo, porque exige repetição, contexto, atrito, diversidade de eventos.
É isso que o tempo faz: nos torna construtores, em vez de apenas reféns de um ideal de perfeição. Em perspectiva, talvez perfeição seja exatamente isso: o encontro orgânico entre imperfeições que se organizam em meio ao caos e, ainda assim, funcionam. Talvez nada chegue até nós por acaso ou fora de hora. Existe um sentido que organiza o que surge, incompreensível para nós, e por isso o chamamos de imperfeito, quando na verdade é só uma imperfeição lógica. Gosto de pensar que muitas coisas parecem chegar quando desenvolvemos repertório suficiente para compreendê-las, para passarmos, enfim, a chamá-las de verdade. Quem sabe seja esse o motivo de tantos beliscões passarem despercebidos: a gente sente o toque, mas ainda não tem repertório para reconhecer o convite.
O tempo é mais esperto do que conseguimos perceber. Ele não muda quem somos pelos valores que adotamos. Muda quem somos pela profundidade com que passamos a vivê-los. Talvez seja justamente aí que more sua verdadeira capacidade de nos transformar.
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