A antessala

a antessala da vida nos faz todo dia rever alguma coisa que poderia existir | foto: oticacotidiana

A gente sente mais do que mostra.

Guarda, no silêncio, afetos que nunca encontram coragem para virar gesto. Aprende cedo a disfarçar o medo, a saudade, a fragilidade, como se sentir demais fosse um risco. E talvez seja. Sentir desloca, rompe certezas, muda a direção das coisas. Tira a vida da órbita previsível, e isso assusta até quem se acredita destemido.

A gente pensa mais do que fala.

As conversas que realmente importam quase sempre acontecem primeiro dentro de nós. Em longos monólogos interiores, intensos e, por vezes, atravessados pela culpa quando alguma coisa sai da rota. Ensaiamos respostas, revisitamos lembranças, imaginamos futuros. Quando chega a hora, porém, deixamos escapar apenas um resumo do que nos atravessa. Não apenas por receio, mas porque um universo inteiro dificilmente cabe em algumas frases. Há sentimentos cuja linguagem mais fiel continua sendo o silêncio.

A gente faz menos do que deseja.

Mesmo quando a vontade existe, a dúvida paralisa e a espera aprende a se disfarçar de prudência. Entre o impulso e a ação, muitas possibilidades envelhecem. Tornam-se lembranças de algo que nunca aconteceu, perguntas que insistem em sobreviver: “e se?”, “como teria sido?”, “será que eu deveria ter tentado?”. Entre o medo de perder algo extraordinário e o medo da dor que uma escolha pode trazer, recuamos. Mas recuar não faz o desejo desaparecer.

E talvez a gente viva menos do que poderia.

Não por causa dos grandes fracassos, mas pelas pequenas renúncias de cada dia. Pelos telefonemas e mensagens adiadas, pelos abraços economizados, pelas viagens sempre marcadas para depois, pelas palavras que nunca encontraram voz. Pelas saídas que nunca se concretizam, pelas desculpas de que o tempo é curto, como se viver pudesse esperar até que a agenda finalmente abrisse espaço para a vida.

Talvez seja essa a verdadeira antessala: o lugar onde sentimentos permanecem contidos, pensamentos nunca ditos aguardam sua vez e desejos acumulam poeira antes de encontrar coragem para existir.

No fim, a vida talvez não nos cobre tudo o que sentimos ou pensamos. Mas dificilmente deixa de nos confrontar com aquilo que escolhemos viver, e com aquilo que deixamos escapar.

E, antes que ela faça qualquer pergunta, talvez exista uma que devêssemos fazer a nós mesmos:

O que ainda dá tempo de não renunciar?

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