A desordem de amar
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| o amor transborda | foto: oticacotidiana |
O amor bateu à sua porta, e você abriu.
Você não esperava essa visita. Sua casa talvez estivesse bagunçada. Talvez você ainda precisasse de algumas reformas, de alguns recomeços. Mas ele chegou.
Ele chegou, entrou pela porta. E pela porta da frente, tá? Não foi pela porta dos fundos. E, quando chegou, bagunçou tudo. Estremeceu o que parecia firme. E aí você se assustou e pensou: o que é que eu faço com isso? Como é que eu lido com isso? Quem é esse ser que está diante de mim e por quem me sinto inexplicavelmente atraído?
Quem é você? Apresente-se, mas não se apresente com todas as suas qualidades, porque, se você fizer isso, eu vou me apaixonar mais. Vou me perder nesse amor, e não posso perder o controle.
Você não quer perder o controle. Quer controlar a sua vida, os seus sentimentos, quer ser racional. Mas todo grande amor, todo amor verdadeiro, não consegue conter absolutamente nada. Seu esforço é em vão. Ele invade e simplesmente existe.
Talvez você só perceba isso daqui a uns dois ou três meses, quando achar que o amor talvez já tenha passado. Mas aí a vida te empurra para um reencontro, e uma única faísca reacende tudo de forma violenta e urgente. Esse sentimento represado entra em combustão.
Todo grande amor provoca grandes bagunças, mas não é aquela bagunça tóxica, não é aquela que faz você perder noites de sono tentando entender se o outro está na mesma sintonia. Não é a infelicidade provocada pela incerteza. Não, não é sobre isso. Todo grande amor traz a beleza de um encontro, a espontaneidade, a química, a verdade.
E, quanto mais você tenta conter, mais isso explode. Quanto mais você faz de conta que não é nada, que é só um sentimento passageiro, mais ele se torna firme, mais se torna sólido. A gente tenta se enganar, mas o amor resiste; o amor verdadeiro sempre resiste.
Você tentou esconder numa caixinha, tentou escondê-lo em algum lugar do armário que possivelmente não vai acessar, longe dos olhos e do coração. Mas, para sua surpresa, em um momento único de silêncio, você mesmo foi atrás. Influenciado por uma vontade inexplicável de viver e pelo cansaço de segurar essa barreira, você mesmo cansou de não viver isso. Demorou um tempo até aceitar que não há razões para evitar.
Pode ter demorado um tempo, eu sei. Mas o que é de verdade sempre permanece, sempre tem força para se impor. E a grande verdade é esta: os grandes e verdadeiros amores não desaparecem e não gostam de ficar nos bastidores por tanto tempo.
Eles não dão conta de se esconder nas entrelinhas, nas indiretas, nas stalkeadas despretensiosas. Os grandes e verdadeiros amores nascem da ação, da troca, da química, da conexão. A gente sente, sente forte, e quer entender o que está sentindo. Mas, ao mesmo tempo, quer se entregar.
A gente quer viver, a gente quer arriscar. Ainda que haja cicatrizes, ainda que haja incertezas, você só quer se jogar nesse sentimento. Quer entender e viver esse sentimento com toda a sua beleza, com toda a sua força, com toda a sua entrega.
Isso talvez seja o mais bonito de tudo, porque os grandes e verdadeiros amores são capazes de nos desarmar diante das nossas próprias razões. E essas razões, que sempre nos aprisionam, um dia se tornam o motor para dizer sim: é hora de começar; sim, é hora de viver algo novo. E sim, você merece aceitar esse presente da vida.
Os grandes e verdadeiros amores chegam sem convite, chegam sem cerimônia: é uma troca de olhares intensos, um beijo que permanece. E, quando você menos espera, já viveu alguma coisa. Alguma coisa que dificilmente será esquecida, alguma coisa que dificilmente deixará de te transformar. E não adianta se esconder, não adianta evitar: o que é seu encontra você.
E talvez esse sentimento que bateu à sua porta, que você tentou evitar, seja o sentimento que está procurando você. E o que é que você pode fazer diante de tudo isso? Ora, viver!
Viver.
Mesmo com medo, mesmo sem respostas, mesmo em meio às incertezas, mesmo em meio às rotinas. Você precisa viver, porque esse é um presente que dificilmente aparecerá novamente.
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