Sobre os encontros forjados pela vida
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| a vida real ainda é perceptível? | foto: oticacotidiana |
Há muita beleza nos encontros forjados pela vida. E me pergunto hoje se ainda temos capacidade de aproveitar essas pequenas espontaneidades da vida. Porque, veja bem, o que somos além de seres com a cara presa a uma tela, que diz o que precisamos fazer, que molda nosso comportamento, nossos sentimentos, que brinca com nossas dores e traumas de forma tão agressiva e rápida, enquanto nos distraímos vendo vídeos curtos? E não, não é uma questão de mera nostalgia, uma nostalgia por um mundo que talvez não seja mais possível. Um mundo que parecia puro demais e bom demais… não, não é sobre isso. Mas o que conseguimos ser para além desse ser que está com o celular sempre nas mãos, sempre planejando tudo, sempre filmando e editando tudo?
Dia desses, fiquei horas no Twitter e no TikTok e me deparei com vídeos de pessoas registrando momentos únicos. Como, por exemplo, o momento em que o filho reencontra os pais depois de morar muito tempo numa cidade distante, ou quando uma das pessoas de um casal surpreende e pede a outra em casamento. E aquilo ali está gravado, embalado com uma música em alta (você sabe de qual eu estou falando, tocou aí na sua cabeça). E eu fiquei pensando: qual seria a verdade desse momento se ele não fosse tão midiático, se tudo tivesse que virar uma trend, conteúdo ou um viral? Será que ele teria potencial para ser algo maior?
Meu pensamento seguiu ao refletir sobre os encontros que temos hoje, os encontros que não são forjados pela vida, os que são forjados pelo algoritmo. E acho isso muito interessante de pensarmos. Porque, observe, os encontros movidos pelos algoritmos são precisos. Eles encontram pessoas que estão dentro desse universo de possibilidades que apresentamos a partir do nosso comportamento. Mas os encontros forjados pela vida não são tão racionais, tão metódicos, orientados ao lucro e à retenção, tampouco tão precisos no sentido sociológico e tecnológico da coisa. É, no entanto, uma tecnologia mais transcendental, talvez, porque nos faz encontrar pessoas que estão disponíveis para viver o que precisamos viver.
E acreditar nessa tese implica em algo meio desagradável: há encontros que serão únicos. Em todos os sentidos: tanto no sentido de que vão nos marcar, quanto no de que não vão se repetir nunca mais. Mesmo se você tiver crises existenciais tentando entender os porquês, se aquela experiência foi boa, se a pessoa era boa, se você era suficiente… Nada disso tem importância, porque era apenas a engenharia da vida em sua precisão milimétrica para você viver e sentir o que precisava naquele instante.
Os encontros movidos pelos algoritmos, por outro lado, movidos pela nossa ansiedade de conhecer coisas novas, de ter o que mostrar, filmar, talvez não tenham essa precisão no sentido de tocar na gente do jeito que precisava tocar. E eu falo isso com muita tranquilidade, porque uso uma métrica muito simples: os encontros forjados pela vida dificilmente são esquecíveis, porque são encaixes. Mas os encontros forjados pela nossa ansiedade, pelos algoritmos, por essa rede que nos media e nos separa, são facilmente esquecíveis.
Veja como conseguimos tão facilmente encontrar uma pessoa hoje com alguns arrastos de tela. Veja como é simples encontrar alguém e ter um momento com esse alguém: tomar um café, conversar por alguns minutos, ter relações sexuais. Mas o que fica depois disso? Agora, aquela pessoa que você encontrou numa caminhada, quando seu voo atrasou, quando foi à praia que você não queria ir, mas resolveu ir mesmo assim… Esses encontros são tão descartáveis assim? É provável que não… Não estou dizendo que são infalíveis. Mas eles… eles têm algo memorável, que é a vida real, a vida que a gente vive.
E não tem performance. Não tem ninguém tirando o celular da bolsa para nos filmar, olhando para nossa cara, esperando nossa reação. E essa reação vai ser o viral, o próximo meme, a próxima figurinha. Não tem nada disso. É você ali, nu como você realmente é. A outra pessoa também nua como ela realmente é: com suas inseguranças, seus sentimentos, seus vazios, suas vontades, seus sonhos, suas aberturas e bloqueios, suas dores, suas delícias. Essas são as pessoas dos encontros forjados pela vida e você consegue sentir e ser parte da história delas só por ter cruzado e trocado olhares.
Então sim, há muita beleza nisso, porque lidamos com a imperfeição. Lidamos com esse olho no olho, coração batendo, frio na barriga, esse medo e, ao mesmo tempo, desejo por explorar um pouco mais, por conhecer um pouco mais.
Então, quer dizer que os encontros dos algoritmos não têm essa potência que os encontros forjados pela vida real, pela vida em que não precisamos sacar um celular para nos filmar? São inferiores? Não. Mas não têm a mesma característica. Esse é o ponto.
E o que mais fico pensando nisso tudo, independentemente das características, é que… eu não sei. Não sei se somos capazes de perceber esses encontros forjados pela vida. E acho que toda a minha reflexão veio disso. Porque os encontros forjados pelos algoritmos, forjados pela nossa ansiedade, pelos nossos desejos, tesão ou carência… eles são mais fáceis de existir, de sobreviver ao nosso tempo.
Mas os encontros forjados pela vida, esses talvez estejam em extinção. Talvez estejam se tornando uma mera nostalgia. Uma coisa de um passado remoto, um passado recente que a gente não lembra muito e não faz muita questão. Porque também, nessa história toda de se entregar ao imprevisto, lidamos com o nosso próprio medo, com a nossa própria insegurança. “Será que se eu conhecer alguém diferente de mim, será que essa pessoa vai estar bem para estar comigo?”, “Será que nosso relacionamento vai ser um relacionamento saudável?”. E aí, quando encontramos nos algoritmos essas respostas, que encontram pessoas ditas perfeitas para a gente, temos um pouco mais de segurança. Afinal, com alguns olhares ali na página do Instagram, você já consegue deduzir, ainda que de forma tosca e precipitada, algumas coisas.
Mas quando você encontra aquela pessoa naquele dia de chuva, na fila de uma lotérica — as pessoas ainda vão à lotérica? —, você não tem nada dessas informações. Você só tem ela ali. E isso é um risco. É um quadro em branco. É um quadro que se apresenta para você como realmente ele é, em sua beleza, em suas imperfeições. Você não tem a sinopse de quem fez aquele quadro, não tem as informações dele. Não sabe o que tem por detrás. E assim são os encontros que a gente vive na vida real. Então isso nos apavora. Temos medo. Não gostamos muito dessa coisa da vulnerabilidade. Não gostamos de nos mostrar um pouco frágeis. Na verdade, não gostamos de nos mostrar nada além daquela confortável versão de nós mesmos em que conseguimos controlar.
Então sim, talvez esses encontros estejam em extinção. Talvez daqui a uns cinco, dez, quinze anos, não vamos mais ter essa capacidade de ver beleza nesses encontros forjados pela vida. Talvez a gente não consiga sequer perceber que esses encontros forjados pela vida existem. Talvez perderemos toda essa coisa de se envolver, de tocar-se pelo desconhecido. E aí, vamos nos entregar ao fácil, a essa coisa tão banal de encontrar pessoas que correspondam às nossas expectativas, que correspondam aos nossos vazios, que correspondam ao nosso movimento preciso que o algoritmo consegue capturar. Bolhas de conforto... E esses encontros, os encontros forjados pela vida, vão ficando para trás: peça obsoleta, coisas de gente velha, coisas de papai e mamãe, de vovô, de vovó, coisas de millennials apaixonados pela ideia de que a vida offline era uma vida mais tranquila, era uma vida mais bonita.
E sinceramente, não há muito o que fazer. Talvez sequer algumas pessoas que leiam isso tenham a noção de que esses encontros forjados pela vida conseguem tocar… que esses encontros forjados pela vida são inesquecíveis. Por quê? Porque passamos por processos tão violentos com nós mesmos de nos apagar, nos anular, nos moldar, nos encaixar num padrão de aceitação, de validação do algoritmo, que a gente… veja só, não sabe muito bem o que sobra, o que faz falta e vira ansiedade. Aos poucos não sabemos muito bem o que fazer com essa vida real.
O que é a vida real? O que conseguimos ainda manter de vida real? São as nossas capturas que conseguimos fazer sacando o telefone do bolso e apontando a câmera? Acho que temos isso, né? De capturar a vida real a todo custo. Outro dia, eu estava num cinema e vi um beija-flor. Saquei meu celular, como todo mundo fez naquele momento, e filmei o beija-flor. Capturei… capturei a vida. Meu Deus, como eu sou esperto! Meu Deus, como fui sagaz naquele momento, como não deixei passar, como já tenho material para poder postar no meu story. E a vida real virou isso, talvez, para muitos de nós: algo que precisamos capturar para lembrar que existe. Será que fazemos selfies de tudo para lembrar que existimos?
Não tem certo nem errado. Tem apenas você e o que você pode suportar.
Que bobagem… é só rolar o feed e se distrair. É só confiar nos algoritmos e deixar que eles façam o nosso match perfeito. A vida lá fora anda insegura. Melhor me fechar no meu cantinho e me manter numa zona em que eu possa sobreviver… Encontros forjados pela vida? Coisa de gente nostálgica, a vida offline era cheia de complicações. E se eu filmo e coloco na nuvem, está tudo seguro. Ninguém me controla, eu sei de mim. Pode não parecer, mas esse será seu raciocínio daqui um tempo. Será que um dia você vai acreditar na natureza perfeitamente imperfeita da vida?
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