Normalidade brasileira

Em um país tão desigual é possível não temer o que se normatiza e flerta com o caos?

da esperança de um futuro diferente ao Brasil de hoje: o que aprendemos?  | foto: Jose Cruz/ABr - Agência Brasil / reprodução

Em 2013 parecíamos viver um sonho. Havia algo despertado, novo e que deu nó na cabeça até dos cientistas políticos de longa carreira. Seria enfim o start para vivermos em um país melhor? O Brasil que protestava ‘não apenas pelos 20 centavos’ estava ali, escancarado para quem quisesse ouvir, participar e ver. Coincidentemente, o sentimento geral por mudança estava pronto para ser usado em manobras políticas cujos efeitos são claramente reconhecíveis e sentidos na própria pele, sobretudo pelos mais vulneráveis, estes, historicamente desassistidos pelo Estado.

Não se trata, evidentemente, de desmerecer o protesto coletivo, longe disso. Mas ele é um marco interessante para observar a história recente. A partir do que se desdobrou daquele marco, daquela esperança usada de forma estratégica pela mesma elite que hoje e historicamente manobra a partir de seus interesses, o resultado é perverso para a maioria dos brasileiros. E é dessa perversidade normatizada que quero tratar. Porque ela segue em nosso país desde sempre, nos tira a esperança de um futuro diferente e faz àqueles cartazes do tipo: ‘desculpem-nos pelos transtornos, estamos melhorando o Brasil’ obras de uma quimera do tempo, de uma janela para um país sufocado que nunca pôde existir.

É perverso e provoca consequências que podem se normatizar com ainda mais força e mais opressão que antes. Um giro pelos sites de notícias e canais de TV e a constatação está ali. Uma fila robusta pela necessidade de sobrevivência, em meio a uma pandemia que se alastra pelas periferias e já mata mais de mil pessoas por dia, por exemplo, revela o pesadelo e o lado mais cruel da desigualdade deste país, que é um dos mais ricos em recursos naturais do planeta.

auxílio emergencial gerou filas em todo país | foto: agência brasil / reprodução

A fila da necessidade para sacar os R$ 600, por ora encarada por alguns como ‘afobação’ e ‘aglomeração desnecessária’, traduz a lamentável estrutura instalada na dura realidade dos milhões de brasileiros que todos os dias tem de optar entre sobreviver a uma possível contaminação ou morrer de fome. Um pouco distante dali, a escolha (se é que podemos chamar isso de poder de escolha) é a de ter emprego (ainda que com salários mais baixos, graças a MP 936) se expondo ao risco, ou preservar-se e aos seus entes, em troca de não ter renda. Condicionar os dois parece luxo para quem detém poder e atua no reforço das desigualdades. Curiosamente, todos os brasileiros pagam impostos e os que têm menos renda sentem o peso da estrutura tributária mais do que àqueles que ganham mais. Mas, na prática, as condições de vida e acesso aos serviços públicos, ou a própria informação, não. 

O que está normatizado é puramente cruel e reflete também a falta que faz o letramento básico, a consciência política, cidadã e principalmente a empatia, sobretudo de quem assiste às cenas como a fila da necessidade passivamente, como se ela fosse mais um mero pedaço dessa realidade normatizada para todos, que inclusive consolida faces da própria necropolítica, comum nas mais diversas regiões do país. Consequências diretas de anos de desassistência de todos os sistemas estruturados nesse país. 

A realidade intragável mencionada se escancara quando a autoridade máxima do sistema político do país, se esforça constantemente em deixar claro o seu desprezo pela vida e pela ciência, quando age e se fortalece pelo caos e medo dos cidadãos. Ou ainda, quando seus ministros em uma reunião ministerial pouco apreciam a ação ou propósito de servir à nação. Desprezam a vida, debocham do povo, das instituições e se mostram distantes da própria civilidade mínima que os seus cargos pedem. Em discursos vazios, apáticos e simplistas, estarrecem às demais nações democráticas do planeta, que assistem a um país rico afundar em meio a própria ignorância, que põe em risco o futuro e o bem-estar de todos e que literalmente custa ainda mais vidas.

Neste caos, pergunto: o que está se estabelecendo como normal (que já não deveria ser) e aceitável nesse país? Quais vidas importam? Que agenda de futuro se desenha pós-pandemia? Como cobrar ações e cidadania a quem desconhece essas noções? Para essas questões não podemos deixar de observar a histórica desigualdade que as elites acreditam não interferir em suas vidas e privilégios, mas que é nociva e destrutiva a qualquer projeto. E mais: é preciso estarmos vigilantes o tempo inteiro até mesmo nos discursos que se fortalecem tentando dizer o contrário. Ou realmente podemos acreditar que se está defendendo empregos e vida dos que historicamente são ignorados pelo projeto político em implantação? 

foto: vinicius gericó / 2016
| foto: Vinicius Gericó / 2016

O Brasil segue flertando com as suas desigualdades, com a servidão por dominação e pelo desprezo da vida. Alguém algum dia se importou com trabalhadores amontoados em conduções lotadas e inseguras? Pela qualidade dos seus empregos e vida cotidiana? Pela renda justa? Alguém algum dia se importou com àqueles que sequer existem para o Estado, e para ausência desse Estado em comunidades marginalizadas e em situações de miserabilidade, que parecem paralelas ao Brasil que se acredita existir em Brasília? Alguém realmente se importa com sistema de saúde, segurança pública, com investimento em educação básica, universidade, ciência, arte ou em construir um futuro?

O normal em nossa cultura sempre foi empurrar com a barriga e seguir adiante, vivendo o presente, ou melhor: sobrevivendo a ele. Quem tem seus privilégios, quer os manter e seguir sem olhar para o lado. Hoje, em uma realidade de pandemia com milhões de infectados e milhares de mortes, isso tudo se torna ainda mais visível e novos estágios dessa normalidade se desdobram. E o que devemos fazer é olhar para esses movimentos e desmontes que estão passando por nós a todo instante, e que estão pondo em risco conquistas históricas e avanços da própria humanidade. Não, não é exagero dizermos que estamos regredindo e sendo irresponsáveis com a vida alheia (e com a nossa também, já que não vivemos isolados) em passos cada vez mais largos. Mas o nosso papel agora tem de ser o de resistência à própria crueldade institucional em prol do redesenho para uma realidade melhor. 

desigualdade no Brasil é uma das maiores do mundo | foto: Fernando Frazão/Agência Brasil/reprodução

E sim, nunca foi pelos 20 centavos naquela época. Hoje é muito mais pelas vidas e pelo futuro. Dos sentimentos sociais se pode tirar grandes transformações, mas para isso é preciso combater à própria aceitação de normalidade que está impregnada em nossos corações e privilégios, estes capazes de nos anestesiar ao conhecer números e realidades alarmantes que aparentemente não nos atinge até sermos parte deles.

Não, não é normal. Não pode ser. 

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