A Epidemia da Vulnerabilidade
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| a epidemia tá on, você quer ficar off? | foto: oticacotidiana |
O cenário é de pânico. Mas não é aquele pânico histérico; é aquele que paralisa por dentro, causa calafrios e posts enviados com perfil fake em uma rede social. O Ministério da Saúde, por sua vez, divulgou um protocolo novo para o enfrentamento dessa crise... digo, dessa epidemia.
#TodosContraAVulnerabilidade.
As ruas já exibem lambe-lambes nos postes, as redes sociais já explodem com conteúdo de influencers de A a Z dando dicas de como se prevenir e não cair na tentação de mostrar, nem que seja online, qualquer resquício de vulnerabilidade.
“É CONTAGIOSO”, dizem aos quatro cantos. Alarmam porque temem o pior...
E sabe o que é mais maluco disso tudo? É que, uma vez vulnerável, não dá mais para viver a mediocridade da farsa e das falsas proteções de antes. Quem quer arriscar mudar em pleno 2026? Francamente, mais fácil pedir para o Gemini ou para o ChatGPT uma resposta ou uma companhia do que enfrentar essa coisa toda de vida real.
Mais um carro do Ministério da Saúde acabou de passar. Ouvi o som do alto-falante berrando em minha janela. Eles estão advertindo toda hora, comunicação em massa. Creio que tentam ao máximo contornar essa epidemia, que já tem inúmeros casos. Eles já não acompanham. O protocolo é repetido infinitas vezes: desapareça sem explicação, não responda mensagens por pelo menos 72 horas, mantenha pelo menos três opções de crush no banco de reservas e jamais — sob qualquer circunstância — diga "eu sinto algo por você" antes do terceiro mês ou de ter alguma segurança de que não será abandonado (a). Porque, afinal, o tempo é relativo, já diria Einstein. Um detalhe importante: tem quem viva aí um ano inteiro como ficante premium pro max justamente porque se blinda e não fala coisas desse tipo. Cada um com suas escolhas, não?
Mas o mais interessante nisso tudo é que, nesse cenário de epidemia, as pessoas meio que já se acostumaram com o isolamento disfarçado de sociabilidade. É gente o dia todo em rede social, caras enfiadas em dispositivos e telas, sobrancelhas iluminadas por dispositivos até tarde da noite. De longe, observo uma moça no auge dos seus 20+ que comemorou o protocolo por saber que, finalmente, uma endemia, um momento histórico, não vai exigir nada mais do que ela já faz. O moço de 30+ também sorriu, no auge da vida, quase nos 40 — em que se prende à fantasia de ser um eterno jovem —, por finalmente estar confortável e não assumir nada com medo de perder alguma coisa que nem ele sabe bem o que é... de certo, não é a juventude.
Uma vez ouvi de um cara que não existiam mais "mulheres boas", porque agora elas tinham poder. Quem diria que o poder assustaria justamente quem sempre se beneficiou dele? Em outro canto da cidade, uma moça dizia estar cansada dos homens brutamontes. Quando apareceu alguém que lhe levava flores, fotografou tudo para o Instagram. Viralizou. Semanas depois, encerrou a ficada antes mesmo que ela ensaiasse virar namoro. "Red flag das brabas", decretou, abraçada ao manual de sobrevivência afetiva encontrado no TikTok. Em outro aplicativo, um rapaz descartava alguém porque apareceu outro mais interessante. Em outro, alguém aguardava a mensagem perfeita. Em outro, alguém esperava a pessoa perfeita. A epidemia avançava sem distinção de gênero, orientação ou CEP. Contágio generalizado.
Nos consultórios de todo o país, a demanda disparou mais que o dólar quando líderes mundiais acordam com vontade de jogar War com o mundo. E, nos corredores, não tinha ninguém buscando cura de nada; vislumbravam apenas atestados que justificassem o vácuo no WhatsApp: “Ai, mas eu não escuto áudio, o problema foi dele”, comentou um dos pacientes da fila. O SUS, inclusive, já trabalha com a "Licença Afeto": são três dias pagos para sumir emocionalmente sem culpa. O INSS está preocupado porque a ausência afetiva pode afetar a produção, aumentar o risco-país e afastar os investidores.
Enquanto isso, nos aplicativos questionáveis de relacionamento, a taxa de matches que evoluem para encontros reais despencou para 0,3%. O resto se dissolve em "foi bom, mas tô num momento..." ou no silêncio definitivo, agora oficialmente reconhecido como método preventivo. Os gen Z comemoraram — têm pavor de conversar. Os millennials também — estão preocupados demais em sobreviver em meio às próprias crises. Quem diria que a paz geracional viria de uma epidemia, não é?
Hoje à noite, peguei-me assistindo ao Jornal Nacional, e lá um epidemiologista-chefe dava entrevista. Ele foi enfático: "A vulnerabilidade é o novo vírus. E a única cura, paradoxalmente, seria se expor a ela, gradualmente. Mas isso seria contra todas as nossas diretrizes". A apresentadora ficou em choque, sua reação virou meme e ninguém se apegou à mensagem.
Durante toda a entrevista, não ouvi aplausos para quem inventou os algoritmos que nos separam e nos mantêm seguros de nossas vulnerabilidades durante a reportagem. Não vi menções honrosas e calorosas aos posts feitos no Canvas e no ChatGPT com mensagens de empoderamento ao abandono sem responsabilidade afetiva. Que loucura, não? Imagina o quanto essa epidemia pode evoluir e nos fazer temer ainda mais o amanhã?
Assim seguimos rolando o feed e deslizando para todos os lados: coletivamente sós, superprotegidos, recomendados a fugir justamente do que nos salvaria. Há quem queira salvação?
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Em Mar Negro, nada é o que parece. Um suspense intenso, com reviravoltas de tirar o fôlego e um final que vai mexer com você por dias.
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