Quando o vazio se disfarça

você confia no seus SIC (sistema imunológico do coração)? | foto: oticacotidiana


As não-experiências deixam na gente uma espécie de buraco. Ou, simplesmente, o vazio do luto ou da superação. Talvez seja aquele mix de faces do quase: quase aconteceu, quase foi vivido, quase experimentado. Esse buraco que fica é silencioso, mesmo quando tudo já é passado. Às vezes, nem o percebemos, ao menos não com a razão.

Racionalidade.

Somos racionais, não? Nos orgulhamos em parecer ou dizer que somos. Dizemos adeus a tudo que passou e afirmamos que daquele passado não precisamos levar nada. Melhor dizendo, não queremos nada. Para que serve o passado nesse mundo que valoriza o agora, né?

E aí seguimos.

Vivendo a vida, um dia após o outro, sem olhar para trás, fugindo do cativeiro das próprias feridas, inclusive as não curadas. Apenas seguindo. Até que, sem aviso, o inconsciente começa a querer cutucar esse vazio. Ou melhor, a causa do vazio. Tentamos refazer o que faltou, esse tal passado superado. O sentido, no entanto, não é o da obsessão ou da posse. Você não quer aquilo que passou da forma que lhe causou dor. Você quer apenas alguma coisa conhecida, algo que você sabe que pode te fazer feliz outra vez.

Se foi um amor, buscamos outro com os mesmos traços, o mesmo jeito de sorrir ou de calar.
Mesmo já tendo superado.
Mesmo sem sentir mais nada.
Mesmo já tendo esquecido até os detalhes daquele tempo.

É o nosso sistema imunológico do coração dizendo: o desconhecido te machuca; aposte em algo em que você pode se entregar, mesmo que seja uma cópia turva. Queremos, no fundo, um fragmento daquela experiência que o corpo lembra de ter sido boa.

Mas sabe esse vazio? Ele é ardiloso. Ele nos engana, nos coloca num lugar de tanta vulnerabilidade que começamos a confundir tudo com nada, e nada com tudo. Na verdade, só precisávamos nos libertar do vazio em si, e da ansiedade furiosa de querer preenchê-lo. Por que diabos nunca ensinaram nas escolas a lidar com o vazio? A gente aprende a falar línguas que parecem impossíveis de aprender, mas não aprende a lidar com o silêncio…

Repetimos fórmulas e caminhos para ter controle. Arriscamos dentro da margem do conhecido. E então não entendemos a frustração quando aquela pessoa, aquele lugar, aquela experiência… não são o que esperávamos. Claro que não seriam. Chegamos até lá embriagados de ausência, com a ânsia cega de que aquele espaço precisava ser ocupado. E que bom -- pensávamos inocentemente -- ocupá-lo com algo que julgávamos reconhecer, algo que parecia conhecido, ao menos em parte.

Imagine então reencontrar uma pessoa que um dia lhe fez feliz. Ou alguém que se parece com ela. Um nome, um traço no rosto, uma característica basta para o encanto. Na ânsia de fazer o quase virar agora, você se entrega achando que conhece aquela alma. Afinal, você viveu aquilo uma vez.

Até que o tempo revela e te desperta desse transe de ilusões: aquela não era a pessoa que você conhecia. Na verdade, você nem a conhecia. Era apenas um disfarce forjado pela não-experiência. Uma ilusão perfeitamente concreta. O vazio, disfarçado de conhecido, e esse é o vazio que aprisiona.



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