Criador amador




Aos poucos vou revirando e retirando os escombros que ainda estão ao redor do meu corpo. Respiro fundo e o ar faz tremer tudo que há em mim. Levanto-me e percebo que há trabalho e passos à frente. Há um tempo, essa pilha de escombros representou um imenso e complexo mundo. Quando coloquei os primeiros tijolos, não me dava conta do quão grande e complexo esse mundo iria se tornar. Faz parte da experiência de todo criador amador não ter noção do que se está construindo.

O espanto chegou, porque mesmo com todo o amadorismo, o mundo funcionava, girava. Assustadoramente funcionava e parecia mais do que perfeito. Eu olhava e admirava o que criei, mas, ao mesmo tempo, parte de mim nutria o medo desse mundo voltar-se contra mim. Mas quer saber? Eu era um puta de um sonhador e construtor. Criei tudo que os meus sonhos e desejos reclamavam desde que eu era criança. Imagine. Anos à espera de uma chance, e se ela chegou capaz de ativar em mim tanta vitalidade, por que desperdiçar? Se ela foi capaz de me fazer construir tudo, por que não aproveitar?

Criei. O mundo estava completo e ele era extraordinariamente belo, porque traduzia a complexidade do meu ser e a sinceridade dos meus sonhos pueris. Contudo, faltava àquele primeiro impulso para que ele pudesse girar. E talvez esse tenha sido o meu maior erro. Deixei que você desse esse impulso e que esse mundo fosse vinculado à força que você dava a ele. Mas não me julguem, porque eu era apenas um criador amador. Acha mesmo que se eu soubesse o quê me esperava, teria criado todo esse mundo?

Meus olhos brilhavam, enquanto esse mundo era conduzido por você. De repente, o medo havia partido e a minha sensação de infinidade ainda era contínua. Eu me sentia grande e em expansão. Não havia mais inércia em mim, enquanto eu me tornava ainda mais complexo, enquanto esse mundo se tornava o meu universo.

Nós estávamos no topo, quando avistamos o nosso próprio oceano. Você conseguia perceber a profundidade dele? Conseguia perceber a profundidade desses sentimentos? Diferentemente do que se via, esse oceano era como uma grande estrada, com trilhas para serem exploradas. Eu olhava para você com felicidade e ternura, porque só você era capaz de fazer a correnteza nos levar.

Você comandou um mundo inteiro e provavelmente não se atentou a isso. Percebe o quão tudo é intenso? Nunca fomos um lugar no mundo, mas um mundo. Só existia nós dois e essa infinidade de sentimentos. No entanto, esse empuxo tinha prazo de validade e quando você notou que a beleza entre nós não te trazia nenhum sentido, deixou à deriva da sorte e das leis universais de um corpo abandonado no espaço. Você não notou e nem parou para imaginar o quão o espaço é frio e escuro, do quanto às vezes suas formas dão medo, porque são desconhecidas. O mundo que construímos se escureceu rapidamente e logo tudo mudou. Assim o mundo ruiu. O nosso mundo.   




  




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