O jogo da aprovação infinita

(ou: por favor, me escolhe sem eu parecer desesperado)

 já cansou desse jogo? | foto: oticacotidiana

Tem um jogo que a gente aprende cedo e demora demais pra perceber que está jogando. Não é aquele das danças das cadeiras, ali você quer ficar sozinho e ganhar. Aqui é o contrário: ser sozinho talvez indique fracasso. (Mais um pra vida adulta, ahnão...)

Ninguém explica as regras, mas todo mundo joga bem (ou quase bem):
o jogo da aprovação infinita.

Funciona assim: você vive normalmente, ou finge, enquanto tenta, discretamente (ou nem tanto), convencer os outros de que você merece ficar.
Ficar no grupo dos amigos.

Ficar na conversa.
Ficar na vida de alguém.
Sem parecer que está tentando.
O que, claro, já é uma tentativa.
Veja só...

Mas olha... um dia, a gente cansa.

Cansa de ser simpático na medida exata.
Nem demais, pra não parecer carente.
Nem de menos, pra não parecer distante.
Uma coreografia social que ninguém ensaiou, mas todo mundo executa.

Cansa de mandar mensagem e revisar mentalmente depois:
“fui muito?”
“fui pouco?”
“fui estranho?”
“já me odeiam?”


Cansa de, no meio de um grupo de amigos, estar levemente performando:
rindo um pouco mais alto, concordando um pouco mais rápido, existindo com um cuidado quase técnico.

Tudo isso pra, no fundo, dizer:
“gostem de mim, por favor... mas com naturalidade.”

Cansa também no amor.
Ou no quase amor.
Ou naquela coisa indefinida que exige mais energia do que deveria. Você está num date e, de repente, você não tá pensando no Uber pra voltar pra casa: está pensando se o outro te aprovou o bastante pra querer te ver outra vez.

Spoiler: você vai surtar se continuar tentando entender...

A gente se pega querendo demonstrar presença o tempo inteiro, como se o outro pudesse esquecer da gente em alguns minutos:
“tô aqui, viu?”
“gosto de você, viu?”
“sou uma boa escolha, olha aí!”


É um marketing pessoal, um seguro duvidoso pro nosso emocional.
E, sinceramente, é exaustivo.

No trabalho, então, vira quase um relatório invisível, um daqueles posts caricatos do LinkedIn:
"olha como eu entrego".
"olha como eu resolvo".
"olha como eu não surto (ou surto pouco e nem reclamo)".


Como se, a qualquer momento, alguém pudesse levantar e dizer:
analisamos aqui e você não convenceu o suficiente.
Sacamos quem é você
!”

Um dia, a gente cansa.

E aí acontece algo meio estranho:
a gente para.
Não de sentir.
Não de querer ser escolhido.
Porque afinal, é tudo sobre ser escolhido: como amigo, namorado, competente, como alguém importante na vida de alguém.
Mas de tentar convencer o tempo inteiro.

A gente começa a desconfiar que talvez (só talvez) o valor não precise ser defendido como uma tese.

E isso dá um certo silêncio.
Que, no começo, parece vazio.
Porque sem o esforço constante, sobra espaço.
E espaço dá uma leve ansiedade ou angústia.
O que me reserva? — Você se pergunta.

É nesse ponto que mora uma armadilha clássica:
evitar conversas difíceis pra não estragar o pouco que parece garantido.
Só que o preço é alto.
Porque você não fala.
O outro não adivinha.
E a relação vai ficando cada vez mais estranha: educada por fora, desconfortável por dentro.
Até que uma hora fica mais cansativo sustentar o desconforto do que correr o risco de ouvir ou falar sobre o que dói.

E aí começam a surgir frases que antes pareciam impossíveis:

“eu não quero continuar.”
“não vamos ter um segundo encontro.”
“isso não tá me fazendo bem.”
“eu não gosto desse lugar que eu tenho aqui.”


Curiosamente, o mundo não acaba.
Às vezes, a pessoa vai embora.
Às vezes, melhora.
Às vezes, nada acontece e você só descobre que o mundo não acabou mesmo.

E aí você finalmente percebe que é melhor ter conversa difíceis, que também são uma forma de demonstrar cuidado e amor, do que alimentar uma dúvida que pode destruir muito mais do que uma relação.

E mais uma coisa muda com certeza: você para de se assistir vivendo. Entende que sua vida não é um conteúdo de rede social: você é você, com toda sua completude.

E isso é um alívio difícil de explicar.

Porque, no fundo, o tal “ser escolhido” continua importando.
Só que deixa de ser uma missão em tempo integral.
A rejeição ainda existe.
Ainda incomoda.
Ainda dá vontade de mandar um “foi algo que eu fiz?” às 2 da manhã.
Mas já não organiza toda a sua vida.

E, aos poucos, uma coisa curiosa acontece:
quem fica… fica sem tanto esforço seu.
Não porque você virou alguém melhor.
Mas porque parou de tentar parecer alguém melhor o tempo inteiro.

Claro, isso vem com efeitos colaterais.
Menos gente.
Menos validação imediata.
Mais silêncio.
E, de vez em quando, aquela dúvida clássica:
“será que eu devia estar me esforçando mais?”

Talvez.
Mas também existe outra possibilidade:
você só parou de jogar um jogo que nunca teve fim
e, pela primeira vez, isso não parece uma perda.

Subam os créditos, o jogo acabou.

 


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