A coragem para aproveitar a juventude

| foto: oticacotidiana

Dia desses me peguei lembrando dos conselhos que recebia quando eu era adolescente. Quase todos diziam implicitamente algo como: “Deixa disso, não se importe! Aproveita a vida e sua juventude enquanto é tempo”. Havia sempre um senso de urgência no conselho, algo líquido capaz de evaporar pelos meus dedos -- algo que eu precisasse beber rápido para não desperdiçar -- mas nunca uma explicação. Aproveitar o quê? O tempo? O corpo? As permissões? A falta de contas a pagar?

Quando fiz meus 18, a tal idade da independência, algumas pessoas me diziam que aproveitar a vida era beber, sair e namorar o quanto eu quisesse e pudesse. Sendo homem, então, a concepção machista reina: quase um jogo de WAR, cujo objetivo é conquistar, acumular e nunca perder. Um misto tentador de privilégios e de adiamento do amadurecimento. E, se eu tivesse caído nessa falácia, talvez não tivesse percebido que tudo isso tem potencial destrutivo.

Foi lá pela casa dos 20, quase 30, que entendi o que significava aproveitar a vida e a juventude. E, mesmo ainda sendo cedo, já era tarde para alguns caminhos. Eu entendi, no tempo que foi possível entender, que aproveitar a vida significa, na verdade, ter coragem, eximir-se da culpa e das crenças que nos aprisionam.

É claro que perceber isso dependerá muito de onde você veio, de onde nasceu, da cor da sua pele, do gênero e da orientação sexual. Contudo, a percepção é válida e universal, ainda que só chegue algum tempo depois para alguns, não por falta de visão e sensibilidade, mas por conta do contexto opressor.

Quando eu tinha meus 17, achava que precisava ter o corpo e a aparência perfeitos e o dinheiro de sobra para poder ser livre e fazer o que eu bem quisesse. De fato, a beleza, a notoriedade e o dinheiro abrem portas, e algumas delas nunca se abririam sem isso. No entanto, o ponto central não devia ter sido esse; devia ter sido o da coragem para existir, para entender que tudo passa e que não se deve ter medo do que podem lhe dizer ou do que você pode descobrir sozinho. A coragem para lidar com suas imperfeições, porque a vida, sendo esse vão de mão única, não dá para voltar atrás.

Então, hoje, não tardiamente, mas já distante dos meus 17 anos, entendo que aproveitar a vida não é aquela bobagem destrutiva e consumista que os filmes americanos mostram, mas sim a coragem para acordar e fazer as coisas que o coração manda, sem temer as consequências, sem temer o que pode (e vai) doer. É fazer as pazes com a potencial ferida, com as próprias omissões e com a potencial dor do que passou e do que virá.

Aproveitar a vida talvez seja entender que vale, sim, a pena arriscar por um amor, mesmo que você não se sinta pronto; arriscar seguir seu sonho, mesmo que o julguem impossível; arriscar-se a olhar no espelho e não procurar defeitos, porque o que consideram defeito é só comparação com alguém que nem existe de verdade.

A gente só percebe o valor de entender isso cedo quando se dá conta de que o nosso tempo é finito neste corpo, nesta existência terrestre. A gente só entende o valor da liberdade e da coragem para existir quando entende que o nosso tempo, uma hora, acaba. Dificilmente, aos 17, você vai sentir isso. Nessa idade, tudo parece distante demais.

Se eu tivesse percebido isso lá atrás, teria me poupado de muito mais dores do que as consequências de ter coragem. Mas quem é capaz de olhar para os próprios olhos e dizer o que precisamos ouvir, senão nós mesmos, com a voz do coração?

Só um PS: sem romantismos, ok?

Seguir a voz do coração é tudo menos um ato romântico. Está mais para um ato de rebeldia ou de socorro diante de um mundo que todo dia rouba um pouco do nosso brilho em favor do encaixe em modelos validados, ainda que falidos e excludentes. Portanto, esse despertar é também um ato de sobrevivência, mas talvez a gente só descubra isso quando já não pode mais voltar para os 17.

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